Seu filho reconhece os números, mas ainda encontra dificuldades para aprender Matemática? Demora para compreender quantidades, esquece os cálculos ou evita atividades que envolvem números?
Muitas famílias acreditam que essas dificuldades surgem apenas durante a alfabetização ou quando começam as operações matemáticas. No entanto, a neurociência mostra que a aprendizagem da Matemática começa muito antes disso.
Antes mesmo de aprender a contar, a criança desenvolve um conjunto de competências chamadas *habilidades pré-numéricas*, fundamentais para construir o raciocínio lógico e compreender o conceito de número.
Quando essas habilidades não se desenvolvem adequadamente, podem surgir dificuldades persistentes na aprendizagem matemática e, em alguns casos, características compatíveis com transtornos específicos da aprendizagem, como a discalculia.
O que são habilidades pré-numéricas?
As habilidades pré-numéricas são competências cognitivas que permitem à criança compreender relações, comparar quantidades, organizar informações e resolver problemas simples antes mesmo da alfabetização matemática.
Essas habilidades são desenvolvidas principalmente por meio das brincadeiras, da exploração do ambiente e das experiências vividas na Educação Infantil.
Entre as principais, destacam-se:
- Classificação:* agrupar objetos de acordo com características semelhantes, como cor, forma ou tamanho.
- Seriação: organizar elementos em uma sequência lógica, do menor para o maior, do mais claro para o mais escuro, por exemplo.
- Seriação: organizar elementos em uma sequência lógica, do menor para o maior, do mais claro para o mais escuro, por exemplo.
- Correspondência um a um: relacionar corretamente um objeto a cada número durante a contagem.
- Conservação: compreender que uma quantidade permanece a mesma, mesmo quando os objetos mudam de posição.
- Inclusão de classes: perceber que um objeto pode pertencer a diferentes categorias ao mesmo tempo.
- Noção de quantidade: identificar qual conjunto possui mais, menos ou a mesma quantidade.
- Orientação espacial e temporal: compreender conceitos como antes, depois, direita, esquerda, dentro, fora, perto e longe.
- Raciocínio lógico: identificar padrões, estabelecer relações e encontrar soluções para problemas.
Essas competências funcionam como os alicerces da aprendizagem matemática. Sem elas, conceitos mais complexos tendem a se tornar muito mais difíceis de compreender.
Como essas habilidades aparecem no dia a dia?
Muitas vezes, os sinais surgem nas brincadeiras e nas atividades cotidianas.
A criança pode apresentar dificuldade para:
* organizar brinquedos por tamanho ou cor;
- montar sequências simples;
- perceber qual grupo tem mais objetos;
- seguir uma ordem de etapas;
- compreender conceitos como “antes” e “depois”;
- entender direita e esquerda;
- realizar contagens apontando corretamente um objeto por vez.
Essas situações não significam, necessariamente, que exista um transtorno. Elas apenas indicam que algumas habilidades importantes para a construção do pensamento matemático ainda estão em desenvolvimento e merecem atenção.
O que a neurociência explica sobre a aprendizagem matemática?
A aprendizagem da Matemática envolve muito mais do que decorar números, tabuadas ou operações.
Diversas regiões do cérebro trabalham em conjunto durante esse processo.
O *córtex parietal* participa da percepção das quantidades e da comparação entre números.
O *córtex pré-frontal* está relacionado às funções executivas, como atenção, memória de trabalho, planejamento, controle dos impulsos e flexibilidade cognitiva.
Já o *hipocampo* desempenha um papel importante na consolidação da aprendizagem e da memória.
Quando essas redes apresentam alterações em seu funcionamento ou desenvolvimento, a criança pode encontrar mais dificuldade para compreender conceitos matemáticos, mesmo demonstrando interesse e potencial para aprender.
Por que atenção e memória de trabalho são tão importantes?
Entre as funções executivas, duas merecem destaque: a atenção e a memória de trabalho.
A memória de trabalho permite que a criança mantenha informações temporariamente enquanto resolve uma atividade. É ela que possibilita, por exemplo, lembrar os números de uma operação enquanto realiza um cálculo mental.
Já a atenção ajuda a selecionar as informações relevantes, manter o foco na tarefa e reduzir distrações durante a resolução de problemas.
Dificuldades nessas funções são frequentemente observadas em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como o TDAH, e também em crianças com dificuldades específicas na aprendizagem da Matemática.
Por isso, compreender como essas habilidades estão funcionando é uma etapa essencial da avaliação.
Quando procurar uma avaliação?
Alguns sinais merecem atenção, especialmente quando persistem ao longo do tempo:
- dificuldade para compreender quantidades;
- demora para aprender conceitos matemáticos básicos;
- esquecimentos frequentes durante as atividades;
- dificuldade para manter a atenção em tarefas que envolvem números;
- resistência ou ansiedade diante da Matemática;
- desempenho muito abaixo do esperado para a idade.
Quanto mais cedo essas dificuldades são identificadas, maiores são as possibilidades de intervenção e de desenvolvimento das competências necessárias para uma aprendizagem segura e significativa.
O olhar da NeuroVida
Na NeuroVida Terapias Integradas, entendemos que aprender Matemática vai muito além de decorar números ou operações.
Nosso trabalho busca compreender como cada criança aprende, investigando aspectos cognitivos, emocionais e do neurodesenvolvimento que podem influenciar seu desempenho escolar.
A partir de avaliações baseadas em evidências científicas, elaboramos planos de intervenção individualizados, respeitando o ritmo, as necessidades e o potencial de cada criança.
Afinal, aprender Matemática não começa pelos números. Começa pela construção das habilidades que permitem ao cérebro compreender o mundo de forma lógica, organizada e significativa.
### Referências
Refrências
* Dehaene, S. The Number Sense: How the Mind Creates Mathematics. Oxford University Press, 2011.
* Diamond, A. Executive Functions. Annual Review of Psychology, 2013.
* Ansari, D. Effects of Development and Enculturation on Number Representation in the Brain. Nature Reviews Neuroscience, 2008.
* Piaget, J. A formação do símbolo na criança.
* Vygotsky, L. A formação social da mente.
Artigo adaptado de recorte da Tese de Pós-graduação em Psicopedagogia (UERJ, 2022), de Bárbara José de Souza de Freitas.



